pesquisa histórica sobre processos fotográficos
KÁTIA BECKER LORENTZ
Pesquisa Histórica sobre Processos Fotográficos
Quando Jacob começou a fotografar há quase 100 anos atrás, os processos fotográficos já haviam sido simplificados permitindo o acesso à fotografia de um público mais amplo e não especializado, embora a arte fotográfica não fosse um hobby barato. Ele iniciou sua carreira em uma viagem à Alemanha em 1929 e fotografou até cerca de 1940.
Jacob Prudêncio foi um fotógrafo amador durante mais de uma década e produziu um acervo particular volumosos e de grande qualidade. Hoje no seu acervo encontram-se quase 1.500 imagens, sendo estas em negativos de vidro e de celulose (9X12cm), fora os positivos produzidos em seu laboratório caseiro. As ampliações originais provavelmente foram feitas em outro local, talvez por ele mesmo, mas desconheço que tivesse ampliador próprio. No acervo há também diplomas ganhos em concursos do Photo Club Helios, do qual fez parte, além de envelopes de material fotográfico, com algumas inscrições sobre procedimentos e materiais usados, caixas de negativos originais, poemas e cartas. A maioria deste material está manuscrito e em alemão. O acervo é composto por imagens dos mais diversos temas.
A fotografia já é considerada há muito tempo como uma rica fonte iconográfica de pesquisa. As imagens de Jacob hoje em dia são um rico acervo histórico permanente de inquestionável valor para a pesquisa. Além do conteúdo informativo de suas imagens há também uma bela poesia visual que Jacob conseguiu imortalizar em suas fotografias. Uma composição com um bom enquadramento além de uma sensibilidade aguçada, mas ao mesmo tempo objetiva e precisa. O entendimento da fotografia como uma forma de representação também viabiliza a análise de problemas históricos associados à construção da imagem. O uso da imagem como um recurso de investigação para a produção de conhecimento científico é comum hodierna e engloba vários segmentos e campos de saber. A fotografia é fundamental para a produção do conhecimento sobre determinados períodos da história, acontecimentos e grupos sociais. A fotografia é simultaneamente um meio de informação e comunicação.
Jacob processava suas fotografias em um laboratório fotográfico caseiro. No mundo da fotografia analógica, isso ainda é possível. Há uma única imagem no acervo em que aparece uma superfície, que pode ser uma mesa ou algo similar, em estão dispostos bandejas e recipientes para produtos químicos, numa visível intenção de registrar como ele fazia o seu processo de revelação fotográfica. Tudo muito simples e não fica claro onde seria este local, uma parte de um banheiro, de uma lavandeira, de um quartinho ou mesmo de um cantinho da casa. Um local que impossibilitasse a entrada de luz e preferencialmente com acesso a água corrente, já seria o suficiente para o trabalho fotográfico que Jacob fazia.
O negativo de vidro é um material volumoso, pesado, muito frágil e usado em placas individuais, tornando o processo fotográfico árduo, mas confere grande qualidade nas imagens. Os negativos de celulose já eram mais fáceis de transportar e mais resistentes ao manuseio, e como a maioria dos positivos são de mesmo tamanho que os negativos, quase todas imagens que Jacob produziu tem uma boa nitidez. Diversas imagens positivas encontradas no acervo, nos dão a impressão de que Jacob, assim como vários outros fotógrafos, fez experiências no seu laboratório caseiro assim como estudos de luz. É possível ver positivos em que parece que a imagem tem textura. E isso é conseguido através do efeito da luz refletida nos objetos. Há um negativo, cuja imagem é de um vaso com rosas, que tem a inserção de algum produto com coloração vermelha. Não tem como se afirmar exatamente o que pretendia Jacob com isso. Poderia ser uma tentativa de colorir a fotografia ou fazer outro efeito, mas não fica clara a sua intenção naquela imagem. Desde o século XIX até boa parte do XX quem quisesse fotografia a cores deveria mandar colorir à mão uma boa prova em preto e branco. E não há imagens coloridas à mão no acervo de Jacob. Ele com certeza teria condições e capacidade de fazer isso e bem feito. Provavelmente ele preferia suas imagens fotográficas em preto e branco mesmo, exatamente como foram produzidas.
O acervo que está agora sobre domínio público, o que permite o uso livre e gratuito, embora sempre com a citação da fonte, deve ser usufruído por todos, sejam pesquisadores, estudiosos ou apenas curiosos. Todo cidadão tem o direito de conhecer a sua história. O acervo que Jacob nos deixou permite que conheçamos uma parte da nossa história através do seu registro fotográfico. Mas o mais importante não é falar sobre suas imagens, e sim conhecê-las. Ou seja, olhar e descortinar as imagens fotográficas feitas pelo Jacob e se permitir viajar no tempo, no espaço e na condição humana.
A cidade de Porto Alegre da década de 1930 era uma capital em crescimento que adquiria status de cidade moderna. Era um dos principais centros urbanos do país, com atividades industriais, comerciais e portuárias. A presença de imigrantes era grande, principalmente alemães, italianos e espanhóis.
Jacob oriundo da comunidade germânica de Porto Alegre, pertencia a elite ligada ao comércio e à indústria da cidade. Essa situação proporcionou sua viagem à Alemanha e a compra de sua Zeiss Ikon em solo alemão. Já em meados dos anos 1920, novas câmeras fotográficas de fácil manuseio e de registro rápido começam a ser comercializadas. O que facilitava ao leigo adentrar no mundo da fotografia. É estranho pensar que um guarda-livros desenvolvesse atividades de ordem artística como a música e a fotografia, mas Jacob além de percussionista virou fotógrafo amador, um hobby feito com paixão e por vezes com um olhar artístico apurado. Seu conhecimento técnico parece ter estado em constante desenvolvimento com parceiros para discussões, relatos de experiências e estudos sobre a arte fotográfica.
Krauss (2002) diz que a fotografia teve um de seus momentos mais inventivos, em muitos aspectos, na década de 1920. Afirma que as condições materiais da produção da imagem fotográfica bem como os componentes técnicos e formais da época não tem equivalente aos dias atuais. Ela refere-se a fotografia artística da época, mas e as imagens do Jacob, como podemos classificá-las? O fotógrafo Paul Strand (2003) publicou um texto em 1923 em que afirmava que a fotografia estava em uma civilização essencialmente industrial e científica, e as aplicações e usos que poderiam ser feitas com ela eram maravilhosos, mas ele preferia desenvolver no texto uma exposição sobre os meios fotográficos como veículos de expressão que, segundo ele, são produzidos com o controle de uma profunda necessidade interior combinada com o conhecimento e que podem converter-se em organismos com vida própria. Seriam o resultado de dois elementos do fotógrafo. O primeiro seria o entendimento e domínio dos materiais e suas técnicas que a prática proporciona. O segundo, indefinível para ele, que põem em contato a imagem fotográfica com a vida, que ele entende que deve ser o resultado de um profundo sentimento e experiência sobre a vida em si. Para Strand a expressividade vem dos elementos puramente fotográficos: forma, textura e linha. E o fotógrafo precisa mirar as coisas que o rodeiam, seu mundo imediato. Para ele, a fotografia é um registro da própria vida.
Tassinari (2008) no seu ensaio sobre Cartier-Bresson cita a fórmula de Charles Baudelaire para o artista moderno: a apreensão do eterno no efêmero1Ideia presente no ensaio O Pintor da Vida Moderna (1863).. Baudelaire entendia que o verdadeiro artista moderno deveria captar a beleza efêmera da vida cotidiana, revelando, por meio do fugaz, algo universal e eterno. Artistas que seriam capazes de transformar cenas passageiras da vida urbana em expressões atemporais da condição humana. Vejo imagens de Jacob nessas circunstâncias. Tassinari no seu texto também explora a questão do espaço perspectivo. Segundo ele, o estilo ou a poética de um fotógrafo só depende da perspectiva no momento em que escolhe a câmera, a lente, o filme e as regulagens que empregará para fotografar, são escolhas anteriores à captura do motivo. Rosalind Krauss também comenta sobre perspectiva argumentando que a câmera fotográfica está disposta de tal modo que a imagem que se forma dentro da câmera escura obedece a uma regra projetiva análoga a que está na origem da construção perspectiva.
Naves (2008) em seu ensaio sobre André Kertész conduz uma escrita que destaca mais o lirismo de uma imagem fotográfica, o suspender do fluxo do tempo. Comenta a ideia de ver uma fotografia e imaginar um mundo para além da imagem retratada. A fotografia é a revelação de um instante em sua fugacidade, o momento em que o real perde sua opacidade e se converte em sentido. Menciona a perspicaz diferenciação de nossas relações com a realidade e o lirismo de quem sabe olhar. De onde vem a educação do olhar de Jacob, certamente de uma observação acurada do seu entorno, das suas adjacências. Mas é a poética de suas fotografias que tornam as imagens fascinantes, será que são o tempo e seu cotidiano que não voltam mais, será a escolha do motivo feita com zelo e perspicácia, objetivamente é difícil de responder. Naves afirma que foi a emancipação do olhar criada pelo impressionismo que tornou possível uma quase universalização da atitude estética diante do mundo, e que isso constitui um dos traços fundamentais da expansão da fotografia. E essa nova realidade é que oportuniza elevar o cidadão comum e o cotidiano a serem dignos de registro e celebração. O amadorismo artístico imprimindo o lado lírico das situações atinge dimensões antes inimagináveis ao registrar momentos aparentemente destituídos de força ou potência. Naves comenta que é uma epopeia do homem comum, pois a fotografia tem o poder de desvelar pequenas verdades do cotidiano.
Penso sempre se seriam de natureza intuitiva as fotografias de Jacob ou seriam meticulosamente planejadas, metodologicamente pensadas. Salvador Dalí (2003) em um texto de 1927 diz que a fotografia é pura criação do espírito, fala em vidro de autêntica poesia. Também vejo aqui nessa percepção do artista surrealista uma relação com as imagens de Jacob. Mammi e Schmarcz (2008) dizem que a fotografia reflete contextos, cria representações, teorias e realidades. Como entender o significado do fotografar para o Jacob, não sei se dá. Me parece ser íntimo demais. Ele parecia ser uma pessoa reservada, mas ao mesmo tempo conseguia se relacionar bem com os outros.
Desde fins do século XIX Porto Alegre já tinha fotógrafos e estúdios fotográficos famosos. E na década de 1930 isso continuava, tirar um retrato significava para a pessoa comum ter que economizar dinheiro e ir ao centro da cidade para fazer seu retrato em algum estúdio fotográfico, geralmente pela Rua da Praia. Custava dinheiro e não era para qualquer um. Na época, as fotografias tinham um outro status, não eram algo comum, coloquial. Jacob deixou um acervo grande e variado com imagens fotográficas de retratos, de trabalhadores, de paisagens urbanas e rurais, de costumes, de edificações, registros de acontecimentos históricos, de cotidianos urbanos e rurais, de litoral, de ritos e celebrações, de animais em estúdio e em habitat doméstico, montagens lúdicas, entre tantas outras. Sua narrativa visual mostra talento, perspicácia e criatividade. Creio que sempre sério, mas sem perder o lado lúdico e o lado empático. Percebe-se o respeito ao ser fotografado. Nas imagens das coisas mais simples, das pessoas mais ordinárias, parece que Jacob nos mostra os bastidores da cidade. Ao vê-las, por vezes, lembro de imagens de Pierre Verger, Alfred Stieglitz, Paul Strand, André Kertész e tantos outros. São imagens que precisam ser apreciadas, que precisam de contemplação, de silêncio, que nos fazem evocar sentimentos. Vejo muita beleza e poesia nas suas imagens, elas provocam reflexões, pensamentos que podem nos levar longe.
O fotógrafo Paul Strand diz que as formas dos objetos, seus tons, as texturas e as linhas são características estritamente fotográficas e que o fotógrafo deve aprender a entendê-las, controlá-las e harmonizá-las. Pensando nas imagens de Jacob, acho que ele fez a sua parte.
Referências:
DALÍ, Salvador. La fotografia como pura creación del espíritu. Pp. 129-131. In: Fontcuberta, Joan (ed.). Estética fotográfica: una selección de textos. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, SL, 2003.
KRAUSS, Rosalind. Lo fotográfico: por uma teoria de los desplazamientos. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, AS, 2002.
MAMMI, Lorenzo; SCHMARCZ, Lilia Moritz. Apresentação. Pp 7-8. 8XFotografia: ensaios/organização Lorenzo Mammi e Lilia Moritz Schwarcz. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
NAVES, Rodrigo. André Kertész: o silêncio do mundo. Pp.49-68. In: 8Xfotografia: ensaios/organização Lorenzo Mammi e Lilia Moritz Schwarcz. – São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
FOTOGRAFIAS COMENTADAS

Limpadores de chaminés
(JPH0049)
Imagem linda que passa uma aura de solenidade, de seriedade e de respeito para com os trabalhadores. Em outra imagem, aparece somente um deles, o da esquerda, caminhando e sorrindo. Imagino que Jacob talvez o tenha convencido a posar para sua máquina depois de uma boa persuasão.

Porto Alegre - Trabalhadores - Tijolos
(JPH0066)
Aqui Jacob aproveita os trabalhadores reunidos de modo descontraído para fazer um retrato coletivo, mas sem interferir na sua labuta.

Cais do porto – Estiva e lenha
(JPH0114)
Imagem bonita mostrando além de trabalhadores comuns, a importância que o porto tinha para a cidade.

Calçamento de rua – Trabalhadores e bonde
(JPH0122)
Esta imagem mostrando trabalhadores calçando a rua me faz lembrar que quando o Largo Glênio Peres teve o chão reformado com as mesmas pedras deste calçamento da imagem, a empresa responsável teve que entrar em contato com os antigos calceteiros municipais aposentados para que esses ensinassem seu ofício para os operários da empresa porque ninguém mais sabia como trabalhar com essas pedras depois que esta função foi extinta no poder municipal.

Arroio Dilúvio – Barqueiros com lenha
(JPH0297)
Uma composição muito bonita do Arroio Dilúvio antes de ter seu curso natural desviado e canalizado. Nesse período o arroio servia de abastecimento de água, descarte de esgoto e lixo, agricultura e criação de animais, lazer e recreação e o transporte e travessia como podemos ver na fotografia que mostra barqueiros transportando lenha.

Cachorrinho e meninas janela
(JPH0324)
Uma imagem simples e singela, mas muito encantadora. Até o cachorrinho parece saber que será retratado. E as meninas não escondem a alegria de fazerem parte de um momento tão significativo.

Festa de cumieira – Rua Coronel Bordini
(JPH0442)
Uma imagem simples e singela, mas muito encantadora. Até o cachorrinho parece saber que será retratado. E as meninas não escondem a alegria de fazerem parte de um momento tão significativo.

Vendedores de aves – Outubro de 1930
(JPH0455)
Parece bem contrastante ver esses vendedores de aves que parecem viver em condições de extrema necessidade em uma cidade que estava em plena expansão.

Gari – Av. Júlio de Castilhos
(JPH0458)
Passados quase cem anos e a profissão de gari ainda é necessária e mantida pela municipalidade. A visão em perspectiva que a imagem oferece da Av. Júlio de Castilhos faz ela parecer infinita.

Vendedor de frutas
(JPH0460)
Vendedor ambulante de frutas e legumes andando durante toda sua jornada de trabalho e carregando o peso das suas mercadorias para garantir o sustento da família.

Ampliação da Farrapos
(JPH0547)
É fantástico o ângulo e a altura que Jacob escolhe para fazer esta tomada, nos dando a dimensão que esta obra tinha na cidade.

Enchente de 1941 – Fábrica Thofehrn pela Farrapos
(JPH0000)
Eis uma foto da tão comentada e longínqua enchente histórica de 1941, coisa de um passado distante, mas que infelizmente voltou a nos visitar em maio de 2024.