Em 2002, eu, Bruno Herrmann, meu pai e a historiadora Kátia Lorentz, elaboramos um projeto que visava dar visibilidade a um acervo fotográfico até então desconhecido, de um fotógrafo amador chamado Jacob Prudêncio, meu avô. Por décadas este acervo permanecera disperso em gavetas e armários da família. Ao sermos contemplados pelo edital do Fumproarte, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, não tínhamos ideia do que esperar em termos de reação do público. Nosso principal objetivo era a exposição que reunia cerca de 40 obras escolhidas a dedo, de forma que dessem um panorama do que ele produzira ao longo dos cerca de 15 anos em que foi mais ativo. Mas por mais que imaginássemos não poderíamos prever a atenção dada pela imprensa na época, e que a afluência do público fosse tão grande. A exposição inaugurava a Foto Galeria Virgílio Calegari da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, e permaneceu por cerca de um mês em cartaz.
Hoje, passados tantos anos, revendo todo acervo com um bocado mais de atenção, fica fácil entender porque tudo foi tão positivo naquele momento. Jacob, como amador, se permitia liberdades que nem sempre o fotógrafo profissional tinha chance de experimentar. A começar pela variedade de temas sobre os quais se debruçou. Desde os inevitáveis temas familiares, por si só já um registro de costumes e atitudes de seu tempo, até as suas delicadas naturezas-mortas e cenários domésticos, há em suas fotos um enquadramento que prioriza e economia de informações, numa espécie de simplicidade cheia de camadas. A clareza com que o tema central de cada foto é expresso, contribui sensivelmente para que façamos um passeio desimpedido pelas imagens. Ao criar esta atmosfera, Jacob nos convida a olhar sempre mais um pouco. Há um cálculo aí: em sua maioria, as imagens apresentam encadeamentos de planos e de elementos, que vão nos conduzindo suavemente pelo ambiente.
Por ser guarda-livros, Jacob soube tirar vantagem da disciplina necessária ao seu ofício. Esta disciplina, aliada a uma rara sensibilidade para alguém cotidianamente dedicado aos números, gerou algumas obras de uma atmosfera cristalina. Na Alemanha, onde adquire a sua Zeiss Ikon e onde começa a fotografar, já é evidente que ele aborda aquelas paisagens muito seguro do que está fazendo. É claro, com certa frequência, algumas paisagens já são praticamente fotos prontas, em virtude de sua beleza. Porém, qual exatamente o enquadramento capaz de valorizar paisagens já tantas vezes vistas? É neste momento que entra a poética dos artistas da imagem, capaz de torná-los autores.
Ao passar a limpo estas fotos de 1929, vejo uma preferência de Jacob por imagens centralizadas, com poderosos pontos de fuga que tem ascendência sobre todos elementos. Um exemplo disso é a fotografia 0722P. É uma composição bem simples, mas com possui sutilezas que amenizam a rigidez do conjunto. O recorte proposto por Jacob, mostra A estrutura vertical sobre uma estrutura com três arcos. Na base desta estrutura, há uma larga escadaria, e à frente desta, o chão. Tudo muito simples, mas a despeito da robustez do conjunto, há uma delicada disposição dos poucos elementos. O monumento é mostrado de acordo com a clássica distribuição por frações de terços, porém, é nos espaços vazios que reside um detalhe sutil, mas fundamental. Há uma sutil correspondência entre os espaços “vazios” do céu e do chão, pois a medida da extremidade do monumento vertical e a face superior da foto, é a mesma que a da escadaria horizontal e a face inferior da foto. Uma “insignificância” vital.
Quando diante de uma paisagem, o fotógrafo capta a essência do que já está estabelecido de antemão, ele provavelmente também seja capaz de ordenar os elementos de um pequeno cenário doméstico. Se na paisagem, as grandes distâncias são determinantes, e as relações de contraste de texturas, cor, luz e sombra já estão dadas, numa natureza-morta, por exemplo, onde as distâncias são mínimas, é ele quem deve decidir como estabelecer os contrastes de forma que a imagem seja legível e coerente com o tema escolhido. Transparências, sombras e reflexos são alguns recursos dos quais Jacob tira partido nestes casos. A distribuição da luz é evidentemente estudada, algumas imagens emergem de fundos escuros, e os contrastes que daí resultam dão ao conjunto uma cadência quase sempre interessante.
De certa forma, este olhar muito seletivo quanto à manifestação da luz, está presente também nas cenas de convívio familiar. Nestas fotos, a distribuição da luz imprime às singelas cenas daqueles cotidianos, atmosferas quase cinematográficas. Seus personagens demonstram estar à vontade diante da câmera, o que sem dúvida deve-se em boa parte ao próprio fotógrafo. Mas o mais curioso em relação a esta naturalidade das pessoas retratadas, é que muitas delas pertencem a outros cotidianos, muito diferentes daqueles aos quais Jacob estava habituado. Do cidadão em situação de rua ao vendedor de frutas ou ao engraxate, só para mencionar alguns exemplos, todos parecem estar bem à vontade diante daquele estranho que os fotografa.
Nas fotografias em que as pessoas estão inseridas na paisagem, há um outro lado. Nestas imagens, jamais a paisagem fica em segundo plano. As pessoas são parte indissociável do conjunto, estão integralmente imersas no cenário. São pequenas figuras que nos convidam a entrar com elas na imagem. O pescador na margem do rio Caí, o grupo fotografado no topo do que hoje é o bairro Bela Vista, o canoeiro que cruza o rio do Mel, os três caminhantes já distantes na pequena estrada de chão e nos ambientes urbanos, enfim, não são poucos os exemplos disso. Marcante neste sentido, são duas fotos nas quais um menininho caminha solitariamente para o interior da imagem. É Curt, o segundo filho de Jacob, caminhando entre as arcadas do Viaduto Otávio Rocha, e ao longo da estradinha que o levará às três figueiras que deram o nome ao bairro. De uma certa forma, situações como essas, mal comparando, lembram a forma como um pintor alemão dispunha as figuras humanas nas suas paisagens: Caspar David Friedrich. Não faço a mínima ideia se Jacob tinha conhecimento da obra deste artista, mas num exercício de imaginação, fico pensando se em sua viagem à Alemanha ele não haveria tido a oportunidade de fazer contato com estas belíssimas pinturas.
A obra de Friedrich, tinha uma face notadamente simbólica, o que de uma certa forma, se percebe na fotografia de Jacob. Este pintor representa um período em que a pintura européia já começa a dedicar à paisagem um protagonismo antes inexistente. Nas paisagens de Jacob, se percebe algo deste caráter pictórico de Friedrich e de outros artistas do norte Europeu.
Existem, entretanto, momentos um pouco menos poéticos no acervo deixado pelo nosso fotógrafo. São registros históricos, que nos trazem um tempo militarizado, muito diferente da nossa realidade atual. Nesta parte do acervo, há situações bem conhecidas da nossa história. Nos impressionam pela sua atmosfera. É um mundo tomado por homens. Um mundo prestes a entrar num conflito catastrófico, provocado por visões de mundo excludentes, incapazes de se reconhecer na alteridade. É o caso de imagens de uma solenidade comemorativa ao Dia do Trabalho, em Porto Alegre, em 1934, que Jacob registrou como integrante do Photo Club Helios, sediado na Sogipa. Do mesmo período, há um desfile militar por ocasião da instauração do Estado Novo, um período ditatorial do governo de Getúlio Vargas, que então, via com simpatia a movimentação dos agrupamentos de caráter extremista. Era um caldeirão fervente, que só poderia dar no que deu, mas ainda assim, olhar para estas e outras fotos do período, provoca espanto. Nestas fotos há essa inevitável linearidade das colunas de gente fardada, em posturas pouco à vontade, inclusive com a presença de crianças. Uma poética um tanto rígida, endurecida, amenizada pelo ângulo das fotos. Nua dessas fotos, a de número 0084P, Jacob registra um desfile militar por ocasião do Estado Novo, na rua Sete de Setembro, em Porto Alegre. Nesta foto, assoma impositivo, um ponto-de-fuga. Jacob está quase em frente ao cortejo, exatamente entre as linhas de bonde, que nos levam rigorosamente até a origem deste ponto-de-fuga. Nada de acaso nisso: este recurso nos joga para dentro da imagem, para junto dele. No evento nazi, documentado na foto 0086P, a situação é diferente. As rígidas linhas estão dispostas numa horizontalidade branca, levemente inclinada. Jacob está distante, quase que à margem. Desta distância, fotografa seus colegas do Helios, que também documentam o acontecimento. Já no registro dos soldados gaúchos embarcando na estação férrea, por ocasião da revolução de 1930, temos uma movimentação quase desordenada das pessoas indo ao encontro do trem que levará a tropa, da qual seu cunhado Arno faz parte.
Temas muito mais amenos, entretanto, compõem a maioria do acervo. E um grupo destas fotografias é talvez, o que mais me toca. É formado por cenas que Jacob montava para as crianças, de forma que elas e seus brinquedos representassem cenas do mundo adulto. São imagens encantadoras, em que os pequenos atores se empenham nos seus papéis. Tudo emana alegria pelo simulacro que claramente diverte as crianças. É novamente, a presença familiar na vida do fotógrafo, registro de uma época em que distrações, brinquedos e brincadeiras eram bem outros. Nas fotos em que o grande círculo familiar e o de seus amigos é registrado, há um inegável documento que evidencia costumes, formas de trajar e consequentemente, formas de ser. É uma graça a foto em que um grupo de moças se perfila, com as mãos sobre os ombros umas das outras. Riem, parecem se divertir. Há aí o dedo de Jacob, a autoria do fotógrafo. Na formação, mas talvez ainda mais, na descontração do grupo fotografado. Em outra imagem, de número 0068P, há o grupo familiar debaixo de uma das três figueiras que deram nome ao bairro de Porto Alegre. Jacob está na imagem. Não é ele que está atrás da máquina no momento do clique. Mas é dele a composição. Às costas da família, como que brota, vigorosa, uma das figueiras, abrindo-se largamente como um leque. Lá de cima, dos galhos da velha árvore, emana uma luz etérea, que confere à imagem uma sensação de sonho, imaginação.
Não sei o quanto especulo no vazio, mas imagino se Jacob tinha alguma noção de legado em sua produção fotográfica ou se sequer alimentasse esta pretensão. Tendo a acreditar que talvez ele tivesse um vago vislumbre de que suas fotos viessem a ser apreciadas num futuro distante como este, onde estamos nós. Talvez intuísse o estranhamento causado pelas rotinas que registrou com tanto cuidado. Mas muito provavelmente não tivesse a menor ideia do quanto seu mundo seria visto como algo tão inacreditável, remoto e diferente de nosso mundo, e em absolutamente todos aspectos. De qualquer forma, este vértice abismal de tempos tão díspares, mas ainda assim, conseguem estabelecer um precário diálogo por meio de singelos cacos de memória, isso é fantástico. É matéria-prima, terreno fértil para fazermos uso do que temos de melhor, que é a nossa imaginação, nossa capacidade de lançar olhares para trás, mas também para a frente, assim como Jacob fez. Por que afinal, somos todos, nós, os de hoje, ele e os seus, os de ontem, partes inextrincáveis do mesmo fluxo histórico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GOMBRICH, E.H. “A História da Arte – Editora LTC (2.000);
SCHAMA, Simon “Paisagem e Memória” – Companhia das Letras (1995)











