Pesquisa estética do acervo

JORGE HERRMANN

O OLHAR REVISITADO

Em 2002, eu, Bruno Herrmann, meu pai e a historiadora Kátia Lorentz, elaboramos um projeto que visava dar visibilidade a um acervo fotográfico até então desconhecido, de um fotógrafo amador chamado Jacob Prudêncio, meu avô. Por décadas este acervo permanecera disperso em gavetas e armários da família. Ao sermos contemplados pelo edital do Fumproarte, da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, não tínhamos ideia do que esperar em termos de reação do público. Nosso principal objetivo era a exposição que reunia cerca de 40 obras escolhidas a dedo, de forma que dessem um panorama do que ele produzira ao longo dos cerca de 15 anos em que foi mais ativo. Mas por mais que imaginássemos não poderíamos prever a atenção dada pela imprensa na época, e que a afluência do público fosse tão grande. A exposição inaugurava a Foto Galeria Virgílio Calegari da Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, e permaneceu por cerca de um mês em cartaz.

   Hoje, passados tantos anos, revendo todo acervo com um bocado mais de atenção, fica fácil entender porque tudo foi tão positivo naquele momento. Jacob, como amador, se permitia liberdades que nem sempre o fotógrafo profissional tinha chance de experimentar. A começar pela variedade de temas sobre os quais se debruçou. Desde os inevitáveis temas familiares, por si só já um registro de costumes e atitudes de seu tempo, até as suas delicadas naturezas-mortas e cenários domésticos, há em suas fotos um enquadramento que prioriza e economia de informações, numa espécie de simplicidade cheia de camadas. A clareza com que o tema central de cada foto é expresso, contribui sensivelmente para que façamos um passeio desimpedido pelas imagens. Ao criar esta atmosfera, Jacob nos convida a olhar sempre mais um pouco. Há um cálculo aí: em sua maioria, as imagens apresentam encadeamentos de planos e de elementos, que vão nos conduzindo suavemente pelo ambiente. 

     Por ser guarda-livros, Jacob soube tirar vantagem da disciplina necessária ao seu ofício. Esta disciplina, aliada a uma rara sensibilidade para alguém cotidianamente dedicado aos números, gerou algumas obras de uma atmosfera cristalina. Na Alemanha, onde adquire a sua Zeiss Ikon e onde começa a fotografar, já é evidente que ele aborda aquelas paisagens muito seguro do que está fazendo. É claro, com certa frequência, algumas paisagens já são praticamente fotos prontas, em virtude de sua beleza. Porém, qual exatamente o enquadramento capaz de valorizar paisagens já tantas vezes vistas? É neste momento que entra a poética dos artistas da imagem, capaz de torná-los autores. 

   Ao passar a limpo estas fotos de 1929, vejo uma preferência de Jacob por imagens centralizadas, com poderosos pontos de fuga que tem ascendência sobre todos elementos. Um exemplo disso é a fotografia 0722P. É uma composição bem simples, mas com possui sutilezas que amenizam a rigidez do conjunto. O recorte proposto por Jacob, mostra A estrutura vertical sobre uma estrutura com três arcos. Na base desta estrutura, há uma larga escadaria, e à frente desta, o chão. Tudo muito simples, mas a despeito da robustez do conjunto, há uma delicada disposição dos poucos elementos. O monumento é mostrado de acordo com a clássica distribuição por frações de terços, porém, é nos espaços vazios que reside um detalhe sutil, mas fundamental. Há uma sutil correspondência entre os espaços “vazios” do céu e do chão, pois a medida da extremidade do monumento vertical e a face superior da foto, é a mesma que a da escadaria horizontal e a face inferior da foto. Uma “insignificância” vital.  

   Quando diante de uma paisagem, o fotógrafo capta a essência do que já está estabelecido de antemão, ele provavelmente também seja capaz de ordenar os elementos de um pequeno cenário doméstico. Se na paisagem, as grandes distâncias são determinantes, e as relações de contraste de texturas, cor, luz e sombra já estão dadas, numa natureza-morta, por exemplo, onde as distâncias são mínimas, é ele quem deve decidir como estabelecer os contrastes de forma que a imagem seja legível e coerente com o tema escolhido. Transparências, sombras e reflexos são alguns recursos dos quais Jacob tira partido nestes casos. A distribuição da luz é evidentemente estudada, algumas imagens emergem de fundos escuros, e os contrastes que daí resultam dão ao conjunto uma cadência quase sempre interessante.

   De certa forma, este olhar muito seletivo quanto à manifestação da luz, está presente também nas cenas de convívio familiar. Nestas fotos, a distribuição da luz imprime às singelas cenas daqueles cotidianos, atmosferas quase   cinematográficas. Seus personagens demonstram estar à vontade diante da câmera, o que sem dúvida deve-se em boa parte ao próprio fotógrafo. Mas o mais curioso em relação a esta naturalidade das pessoas retratadas, é que muitas delas pertencem a outros cotidianos, muito diferentes daqueles aos quais Jacob estava habituado. Do cidadão em situação de rua ao vendedor de frutas ou ao engraxate, só para mencionar alguns exemplos, todos parecem estar bem à vontade diante daquele estranho que os fotografa.

   Nas fotografias em que as pessoas estão inseridas na paisagem, há um outro lado. Nestas imagens, jamais a paisagem fica em segundo plano. As pessoas são parte indissociável do conjunto, estão integralmente imersas no cenário. São pequenas figuras que nos convidam a entrar com elas na imagem. O pescador na margem do rio Caí, o grupo fotografado no topo do que hoje é o bairro Bela Vista, o canoeiro que cruza o rio do Mel, os três caminhantes já distantes na pequena estrada de chão e nos ambientes urbanos, enfim, não são poucos os exemplos disso. Marcante neste sentido, são duas fotos nas quais um menininho caminha solitariamente para o interior da imagem. É Curt, o segundo filho de Jacob, caminhando entre as arcadas do Viaduto Otávio Rocha, e ao longo da estradinha que o levará às três figueiras que deram o nome ao bairro. De uma certa forma, situações como essas, mal comparando, lembram a forma como um pintor alemão dispunha as figuras humanas nas suas paisagens: Caspar David Friedrich. Não faço a mínima ideia se Jacob tinha conhecimento da obra deste artista, mas num exercício de imaginação, fico pensando se em sua viagem à Alemanha ele não haveria tido a oportunidade de fazer contato com estas belíssimas pinturas. 

   A obra de Friedrich, tinha uma face notadamente simbólica, o que de uma certa forma, se percebe na fotografia de Jacob. Este pintor representa um período em que a pintura européia já começa a dedicar à paisagem um protagonismo antes inexistente. Nas paisagens de Jacob, se percebe algo deste caráter pictórico de Friedrich e de outros artistas do norte Europeu.

   Existem, entretanto, momentos um pouco menos poéticos no acervo deixado pelo nosso fotógrafo. São registros históricos, que nos trazem um tempo militarizado, muito diferente da nossa realidade atual. Nesta parte do acervo, há situações bem conhecidas da nossa história. Nos impressionam pela sua atmosfera. É um mundo tomado por homens. Um mundo prestes a entrar num conflito catastrófico, provocado por visões de mundo excludentes, incapazes de se reconhecer na alteridade. É o caso de imagens de uma solenidade comemorativa ao Dia do Trabalho, em Porto Alegre, em 1934, que Jacob registrou como integrante do Photo Club Helios, sediado na Sogipa. Do mesmo período, há um desfile militar por ocasião da instauração do Estado Novo, um período ditatorial do governo de Getúlio Vargas, que então, via com simpatia a movimentação dos agrupamentos de caráter extremista. Era um caldeirão fervente, que só poderia dar no que deu, mas ainda assim, olhar para estas e outras fotos do período, provoca espanto. Nestas fotos há essa inevitável linearidade das colunas de gente fardada, em posturas pouco à vontade, inclusive com a presença de crianças. Uma poética um tanto rígida, endurecida, amenizada pelo ângulo das fotos. Nua dessas fotos, a de número 0084P, Jacob registra um desfile militar por ocasião do Estado Novo, na rua Sete de Setembro, em Porto Alegre. Nesta foto, assoma impositivo, um ponto-de-fuga. Jacob está quase em frente ao cortejo, exatamente entre as linhas de bonde, que nos levam rigorosamente até a origem deste ponto-de-fuga. Nada de acaso nisso: este recurso nos joga para dentro da imagem, para junto dele. No evento nazi, documentado na foto 0086P, a situação é diferente. As rígidas linhas estão dispostas numa horizontalidade branca, levemente inclinada. Jacob está distante, quase que à margem. Desta distância, fotografa seus colegas do Helios, que também documentam o acontecimento. Já no registro dos soldados gaúchos embarcando na estação férrea, por ocasião da revolução de 1930, temos uma movimentação quase desordenada das pessoas indo ao encontro do trem que levará a tropa, da qual seu cunhado Arno faz parte.

   Temas muito mais amenos, entretanto, compõem a maioria do acervo. E um grupo destas fotografias é talvez, o que mais me toca. É formado por cenas que Jacob montava para as crianças, de forma que elas e seus brinquedos representassem cenas do mundo adulto. São imagens encantadoras, em que os pequenos atores se empenham nos seus papéis. Tudo emana alegria pelo simulacro que claramente diverte as crianças. É novamente, a presença familiar na vida do fotógrafo, registro de uma época em que distrações, brinquedos e brincadeiras eram bem outros. Nas fotos em que o grande círculo familiar e o de seus amigos é registrado, há um inegável documento que evidencia costumes, formas de trajar e consequentemente, formas de ser. É uma graça a foto em que  um grupo de moças se perfila, com as mãos sobre os ombros umas das outras. Riem, parecem se divertir. Há aí o dedo de Jacob, a autoria do fotógrafo. Na formação, mas talvez ainda mais, na descontração do grupo fotografado. Em outra imagem, de número 0068P, há o grupo familiar debaixo de uma das três figueiras que deram nome ao bairro de Porto Alegre. Jacob está na imagem. Não é ele que está atrás da máquina no momento do clique. Mas é dele a composição. Às costas da família, como que brota, vigorosa, uma das figueiras, abrindo-se largamente como um leque. Lá de cima, dos galhos da velha árvore, emana uma luz etérea, que confere à imagem uma sensação de sonho, imaginação.  

   Não sei o quanto especulo no vazio, mas imagino se Jacob tinha alguma noção de legado em sua produção fotográfica ou se sequer alimentasse esta pretensão. Tendo a acreditar que talvez ele tivesse um vago vislumbre de que suas fotos viessem a ser apreciadas num futuro distante como este, onde estamos nós. Talvez intuísse o estranhamento causado pelas rotinas que registrou com tanto cuidado. Mas muito provavelmente não tivesse a menor ideia do quanto seu mundo seria visto como algo tão inacreditável, remoto e diferente de nosso mundo, e em absolutamente todos aspectos. De qualquer forma, este vértice abismal de tempos tão díspares, mas ainda assim, conseguem estabelecer um precário diálogo por meio de singelos cacos de memória, isso é fantástico. É matéria-prima, terreno fértil para fazermos uso do que temos de melhor, que é a nossa imaginação, nossa capacidade de lançar olhares para trás, mas também para a frente, assim como Jacob fez. Por que afinal, somos todos, nós, os de hoje, ele e os seus, os de ontem, partes inextrincáveis do mesmo fluxo histórico.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

GOMBRICH, E.H. “A História da Arte – Editora LTC (2.000);

SCHAMA, Simon “Paisagem e Memória” – Companhia das Letras (1995)

FOTOGRAFIAS COMENTADAS

   Duas Mãos

Por vezes, Jacob estendia um pano escuro no local da foto, para obter um fundo neutro. É o caso desta fotografia, uma raridade no acervo. Há fotos em que ele fotografa as próprias mãos, mas não há registro de outra foto com mãos femininas.

   Nas imagens das próprias mãos, há uma energia que por óbvio, são muito diferentes desta, que prima pela leveza. Estas mãos aí, sempre me pareceram flanar. Conversam. A exiguidade de informações me dá a impressão que poderia concluir este comentário por aqui mesmo. A completude do conjunto parece definitiva. Mas não e. É apenas uma ilusão, para quem já não consegue parar para simplesmente ver o âmago de uma imagem. Nada aqui parece realmente fechado a novos olhares.

   Mãos tem um poder de imantação, e na situação que for, estão sempre eivadas de significados. Toda vez que revejo esta obra, me vem as imediatas e singelas questões: o que queria dizer Jacob, com estas mãos? E de quem seriam? Evidentemente, aí há um diálogo. Não exatamente entre mãos, mas entre subjetividades.

   A luz refletida na mão direita é intensa. É a região mais iluminada da foto, onde o contraste é mais intenso, conferindo a teatralidade que Jacob certamente desejou. A estrutura da formação é de diagonais, a começar pelo iminente encontro das mãos. É curioso. As entendo como se estivessem se aproximando, ao invés de estarem simplesmente paradas, ou se afastando. Subjetividade. De todo modo, quase se tocam, e nisto, sugerem um triângulo negro no vazio que se formaria entre elas. A mão esquerda emerge de um dos vértices inferiores. É uma continuidade do punho. A direita não. Ela diverge do ângulo do antebraço, e desce. É unidirecional. O seu polegar não aparece. Mas na mão esquerda não. Faz um paralelismo com a margem direita da foto. Ao estender-se, abre um pequeno leque no vazio que forma com o corpo da mão, sugerindo uma espera.    Divago, sei disso. Mas é de poesia que estou tratando. E não seria precisamente disso que se trata, quando uma fotografia se propõe a ser arte?

Canhoneiras no cais

Qual a poética possível num cenário cujo protagonismo é o de três embarcações de guerra? Esta foto nos propõe uma resposta. Quando Jacob chegou ao cais, já encontrou a cena montada. Desta vez, quase dá pra cravar que ele logo percebeu o que eu, há anos-luz da sua realidade, percebo. É justamente da angulosidade e dureza dos elementos, que Jacob se serve para nos oferecer uma poética possível.

Em suas fotografias, ele busca sempre o ângulo mais legível possível. A grande maioria de sua produção é pautada por essa premissa, de propor perguntas e consequentemente, um diálogo com o observador. Suas composições são cuidadosas, estudadas. Ao entrarmos no cais com o menininho e seu pai, logo percebemos o horizonte à direita, que balizará a disposição de todos os demais elementos. Passando por trás das canhoneiras, este horizonte se encontrará com o ponto de fuga sinalizado pelos trilhos e pela murada do cais. Esta, por sua vez, é uma linha vertical, que tem o interessante papel de estabelecer a separação destes dois mundos, o que transita nas águas e outro, o da terra firme. Mas mais do que isso: ela é uma espécie de introdução às formações verticais da torre do guindaste e dos mastros que preenchem parte superior da foto.

É bacana ver que o próprio barco com os remadores abaixo, à direita, também contribui para a percepção do ponto de fuga. Uma feliz coincidência. Nesta imagem dos remadores há uma estranha distorção. Eles aparentam estar numa escala consideravelmente menor do que as demais pessoas que circulam no cais. Isto se deve ao fato de estarem em um plano inferior, muito próximos dos navios, que são bem grandes.

Outra curiosidade é a presença ritmada de triângulos que estão distribuídos por toda parte. Dos telhados dos galpões, à esquerda ao braço do guindaste, e deste, aos toldos das embarcações e por fim, às suas proas. Esta angulosidade tão impositiva, é suavizada pela organicidade do cordame que entra na imagem para se agarrar ao cais, e pelo pequeno grupo de pessoas que ruma para o fundo.

Se tudo isso for puro resultado do acaso ou de um punhado de sorte, não posso afirmar. Se tudo isso foi observado por Jacob, tampouco. Como tampouco não saberei dizer o que ele possa ter visto aí, que eu até hoje, passados tantos anos, ainda não vi.

Três Figueiras – Rua Carlos Huber

(JPH0099)

A paisagem desta Três Figueiras remota, quase inacreditável, se abre para o observador de uma forma muito simples, quase despreocupada, nada parece haver de relevante no primeiro plano da imagem. Porém, este aparente vazio é vital Dele, verte todo o movimento sinuoso da estradinha, primeiro à direita e lá adiante à esquerda, perdendo-se no horizonte e dando sentido à composição. A figura do menininho, que com um pequeno cajado, simula uma longa caminhada, reforça a importância desta região da foto. Ele inspira uma reflexão. Sua presença provoca um certo estranhamento: está só, e diante de si, tem uma longa e imaginária caminhada, cujo sentido, mais do que de espaço e distâncias, parece sugerir algo sobre a passagem do tempo. O molequinho chama-se Curt, filho de Jacob. Sua vida foi de fato, uma longa caminhada de mais de noventa anos. Tinha a exata noção de quanto o passado, quando documentado, torna-se essencial para a compreensão do presente. Foi o memorialista da família, elaborando com paciência e critério, uma cuidadosa genealogia e um volume de memórias, que revelam surpreendentes facetas que iam bem além do guarda-livros e fotógrafo que era Jacob.

É claro, reflexões desta natureza não fazem parte de uma análise estética, porém certas imagens têm esta natureza, de acionar significados que em muito extravasam a concretude de seu tema propriamente dito.

Jacob tirou esta foto durante a tarde, conforme sugerem as sombras que se projetam a partir da esquerda, cruzando a estradinha. Ao fazê-lo, elas tornam nosso olhar mais lento, nos convidando sutilmente a olhar para o lado, revelando que à esquerda, imersos na sombra, há detalhes antes impercetíveis.

Tirada de uma relativa altura, a foto tem o horizonte acima da linha mediana da imagem. Ligeiramente inclinado, este horizonte é reforçado pelo casario em meio à vegetação e pela bela horizontalidade da figueira na extremidade direita. Ao fundo, muito discretamente, forçando um pouco o olhar, podemos ter uma pálida ideia de mais um horizonte.

Enfim, nesta poética visual, talvez não haja tanta intencionalidade quanto este comentário sugere. Porém é de acasos que também se faz uma obra. De muitos destes acasos, Jacob provavelmente teria se apercebido ao se envolver com as surpresas reservadas a cada fotógrafo, no momento em que os negativos são revelados.

Viaduto da Borges

(JPH0149)

Dentre todas imagens que sempre me chamaram atenção, esta talvez seja a que mais me impressiona. Hoje, ela já é bem conhecida, por sua poderosa simplicidade. O menino que caminha cabisbaixo pelas arcadas de um viaduto da Borges de Medeiros recém-inaugurado, me induz a interpretações que por vezes são divergentes. Sua pequena figura, envolta pela monumentalidade das arcadas migrando para um ponto de fuga fortemente centralizado, me faz refletir sobre a nossa condição humana, inevitavelmente heroica, diante da grandiosidade de tudo o que nos envolve.

Mas há nesta foto um ingrediente, de natureza bem menos subjetiva. Ela revela um detalhe fascinante, que me faz imaginar os passos de Jacob antes de realizá-la. As sombras projetadas no chão pelas colunas são claramente horizontalizadas, algo que a princípio, não parece relevante, tal a naturalidade com que isso é mostrado. Entretanto, para conseguir esse efeito, Jacob precisaria ter a noção exata da hora em que o sol geraria tais sombras. Seria necessário saber a hora exata. Confesso que só fui dar a devida atenção a este singelo detalhe ao olhar os dados que ele havia colocado no envelope onde guardou o negativo. Ali ele anotou a data: 08 de janeiro de 1933, e a hora: 10h30min.

Para uma imagem com os elementos assim tão fortemente centralizados, é necessário contar com o auxílio de alguns outros recursos visuais, e isto acontece quando acompanhamos, quase ludicamente, os ritmos que fluem em direção ao fundo. Alguns deles, muito evidentes, como as próprias colunas, seus arcos e sombras. Outros um pouco mais sutis, como os círculos brancos das luminárias migrando suavemente sobre o teto igualmente branco. No entanto, me parece que afora a figura tão simbólica do menininho, o elemento que mais retém o nosso foco, é o piso, que propõem um diálogo visual entre losangos e retângulos escuros, que por sua vez, desaceleram um pouco a atração exercida pelo ponto-de-fuga. Isto, claro, não é obra de Jacob, porém, evidentemente, é um detalhe que não lhe passou desapercebido.

Porto Alegre (talvez Alto Petrópolis)

(JPH0128)

Não sei ao certo onde é este lugar, mas por ter ouvido certa vez de alguém, e pelo que se identifica à distância, é bem provável que estejamos olhando para a planície por onde cruza hoje a avenida Bento Gonçalves. E por dedução, nosso ponto de vista é a parte mais alta da Protásio Alves, na altura do cruzamento com a Carlos Gomes. Mas tudo isso, está aí, apenas como um porvir, e o bucolismo dessa imagem chega a ser desconcertante, tal a gama de sensações que provoca. Esta paisagem com os dias contados, confere, assim como todas as imagens antigas, uma dramaticidade toda especial ao que hoje temos como exemplos de nossas paisagens urbanas atuais.

A paisagem desimpedida desta foto, permite um amplo entendimento dos limites da cidade, o que por óbvio que é, nos permite inferir, que se tivéssemos o tino de preservar pelo menos alguns trechos de nossas cidades assim, abertos, em contato com os horizontes, o nosso grau de conflito e instabilidade emocional seria imensamente menor. Seríamos emocionalmente bem mais sadios, ao ter a possibilidade de entrever, em meio à nossa agitação atual, os limites do lugar onde estamos vivendo. Mas enfim, Jacob teve esta possibilidade, nós não. E é um exercício e tanto, imaginar o que ele escolheria para fotografar hoje. Evidentemente, depois de ter se recuperado do susto…

Mas bem, o que vemos aqui? O que em Jacob, reverberou, para que esta foto fosse tirada? Certamente este horizonte amplo, a planície plena, feita de desdobramentos quase imperceptíveis ao fundo. Talvez o rimo dos pequenos pontos brancos de zona urbanizada que avança ainda cautelosamente sobre o espaço verde. Ou a franja de mato escuro um pouquinho mais à frente, ou talvez, nada disso… Talvez apenas o folhar do fotógrafo estivesse apenas interessado neste plano frontal que ocupa a maior parte do que está abaixo do horizonte.

A maior parte do pano frontal, observem, é um quase nada, mas um quase nada essencial. Através dele, chegamos ao que talvez fosse o foco principal da atenção de Jacob. Sim, os animais. Ou sim, as palmeiras, a cerquinha à esquerda, a ligeira convexidade do terreno, que amplia o repertório da foto. O plano frontal, antes uma coisa só, agora é uma sucessão de informações. Elas têm o tipo de coerência que interessa aos mais atentos. Se encadeiam de uma forma meramente casual, mas é o ângulo escolhido pelo fotógrafo, que vai revelar a forma como se encadeiam.

A leve curvatura do terreno é o limite deste palco onde acontecem tais diálogos. É um todo harmonioso e sutilmente assimétrico. A curvatura do campo é demarcada por uma cerquinha, que imprime um leve ritmo, que logo é quebrado pela distribuição aleatória dos animais tranquilos em seu desinteresse por nossos assuntos. Eles juntos, mesmo que em desalinho, acompanham o limite horizontalizado do campinho, e nos convidam a contar: seis vacas, não, não, sete! Há cavalos. Não havia visto tantos antes, mas agora vejo melhor, porque vejo com muito mais atenção. São seis os cavalos.

Sei. As palmeiras, claro. São butiás. Bem altos e por isso, provavelmente bem velhos. Mas o fato de serem butiás é um pouco menos relevante do que seu papel na foto. Sua verticalidade é um escancarado e elegante contraponto a tudo o que vimos ate agora. Eles balizam toda a composição. São uma espécie de âncora, da qual nos servimos para pular de um elemento para outro. Cortam o horizonte sem a menor cerimônia, e como num toque de refinamento, inclinam-se docemente um em direção ao outro. Entre eles, só agora percebo, existe uma mancha formada por três grandes árvores estranhamente inclinadas. E mais ao fundo, o que agora parece uma igreja e que antes, era um quase nada, perdido num todo indistinto.

Arroio Dilúvio com barqueiros trazendo lenha – Fundos da rua João Alfredo (Cidade Baixa)

(JPH0100)

Há muitos e muitos anos olho esta foto, admiro sua atmosfera tranquila, que sugere um suave som do barco cortando a água, e talvez dos chamados dos barqueiros, anunciando sua passagem com a preciosa lenha, tão necessária aqueles tempos. Mas mesmo a apreciando, nunca antes tinha me perguntado de onde afinal, Jacob tirou esta foto.

O arroio passa no fundo do casario cuja frente dá para a rua João Alfredo, na Cidade Baixa. A julgar pela casa que ainda existe ali segundo o próprio morador, estamos praticamente na esquina com a rua da República. Mas que ponte haveria por ali, para propiciar uma foto acima do nível da água? Ou por outra, o Dilúvio permitiria a navegação de barcos de maior calado, de cuja proa, Jacob pudesse ter tirado a foto? Enfim, constatações como esta, ainda que tardias, representam o quanto um momento cristalizado no tempo, pelo olhar curioso e sensível do fotógrafo, podem sempre suscitar novas perguntas.

O desenho que o arroio faz na imagem, é de uma grande curva, cortada pela cerca e pelo casebre que se erguem na margem direita. As margens mais próximas do arroio, estão quase que rigorosamente em consonância com os cantos inferiores da fotografia, proporcionando as condições para que um suave e poético encadeamento de elementos se mostre a partir dali. A presença da canoa vazia na margem esquerda, cuja proa aponta no sentido em que ali adiante vão os barqueiros, reforça este equilíbrio de elementos.

O casario da margem esquerda, por sua vez, acompanha graciosamente o curso da água, e em sua curvatura, atravessa a foto em toda sua extensão horizontal, até o extremo direito. Ali, onde não se vê mais o arroio, a nossa atenção se fixa no reflexo, que a placidez das águas, ainda não agitadas pelo barco, reflete as casas.

Ainda no primeiro plano, a figura vertical dos dois barqueiros é central, configurando o foco principal de Jacob. Ele está interessado nestas pessoas, no seu cotidiano. Quer saber, mesmo à distância, além do que já vê neste momento em que fotografa, o que a foto lhe dirá, no momento da revelação. Este já é um mundo de contrastes. À esquerda, casas de alvenaria; à direita, o vislumbre de uma ocupação precária, do casebre e algumas estruturas de madeira que sugerem estarmos nas imediações do lendário Areal da Baronesa.

A respeito desta árvore mencionada acima, é interessante observar porém, seu papel agregador no conjunto. A sua presença na imagem não foi obviamente, escolha de Jacob, afinal, o momento de algumas fotos é inadiável, e aquele era o momento. Mas o fato é que, pela sua organicidade, ela tem o interessante papel de proporcionar um diálogo com a margem oposta, dominada pela vegetação baixa;

Ainda é interessante observar que a presença do barquinho ancorado na cerca de madeira, ao pé da casa mais próxima, nos traz um .

Num Pequeno Cais – provavelmente Rio Caí

(JPH0050/0450/0453)

Jacob produziu uma pequena série dedicada a este personagem que parece estar picando fumo, ou talvez manuseando um anzol. Este detalhe torna-se secundário, se considerarmos um outro aspecto, que só pode ser entendido se cotejamos o conjunto destas três fotos. Ocorre que elas fazem um giro em torno do velho negro, dando a entender em que cenário estamos. Em todas três, ele permanece concentrado em sua rotina, e isto me chama atenção. Como os demais personagens registrados por Jacob, este homem não aparenta estranhamento algum diante de alguém que o fotografa. Naqueles tempos, muito diferentemente de hoje, ser fotografado, não era propriamente algo rotineiro. Mas lá está o velho, relaxado, envolvido sabe-se lá em quais das tantas memórias que acumulou ao longo da vida.

O pequeno rio que ocupa o plano intermediário da imagem, talvez seja o Caí, onde a família da esposa, Hedwig, tinha suas raízes. A placidez da água replica a franja de mata ciliar, que define o plano de fundo. Numa das fotos, acima da mata, há um casario de alvenaria, que acentua, talvez propositalmente, o abismo que há aqui, entre duas realidades divergentes. A pequena mata contrasta com os elementos diagonais que definem fortemente o cais.. Uma taquara chanfrada, reforça essa diiagonalidade. A figura do velho homem, que protagoniza a cena com naturalidade, mantém a mesma gestualidade nas três fotos, conferindo uma atmosfera serena, que parece plenamente sintonizada com o riozinho. Não há vento, talvez haja muito silêncio neste momento remoto, tão outro tempo, tão distante de tudo o que pensamos conhecer. Talvez nesta cena, estejam apenas os dois homens: o fotografado e o fotógrafo, que deixou o registro de sua presença no piso do cais.

O que numa obra é intencional, o que não é? Quantas vezes até mesmo o tema aparece de surpresa e de súbito, o artista percebe que está diante de uma realidade profunda e cheia de significado? Talvez isto tenha acontecido aqui. Jacob era um homem sensível, e suas imagens demonstram claramente a inclinação que tinha para retratar aqueles que não faziam parte de sua realidade cotidiana. As fotos mostram que atrás da câmera havia alguém interessado pelos que estavam diante da câmera.

Cidreira 1931

A família veraneou no litoral, talvez pela primeira vez, em 1931. Deste ano, temos várias fotos de Cidreira, em algumas das quais aparecem Hedwig, Curt e eventualmente o próprio Jacob. Que seja ele exatamente o fotógrafo, é duvidoso. Estamos estudando esta possibilidade, a partir do que se sabe dos recursos da Zeiss Ikon, que utilizava. Como esta câmera já possuía temporizador, é provável sim, que seja ele o autor. Os próprios enquadramentos sugerem esta hipótese.

Tenha sido ele a acionar a câmera ou alguma outra pessoa, de qualquer forma, nesta imagem é possível perceber uma disposição das pessoas que valoriza de forma muito interessante o cenário da qual são protagonistas. A simplicidade da composição centralizada, com sutis sugestões de quebra da simetria, são indicativos de que aí temos a marca de seu olhar.

O grupo de pessoas tem uma delicada coesão, que parece nos incluir. Todos, inclusive as crianças ao centro, nos olham atentamente. Sua formação faz uma leve curvatura, em sintonia com o limite superior do terreno. A maioria usa roupas claras, o que contribui para a impressão que se tem de uma leveza quebrada apenas pelo casual mas igualmente providencial contraste das duas senhoras de negro, uma em cada lado do grupo. O terreno apresenta uma inclinação que coloca o horizonte bem acima da linha mediana da imagem.

Ao fundo, sobre este horizonte elevado, assoma a igreja, imprimindo uma bela solenidade ao conjunto. Sua posição quase central, não é um acaso. Ela é o foco do próprio ordenamento do lugar. O alinhamento dos chalés convergindo em sua direção, reforça sua ascendência sobre a paisagem. Todo grupo de edificações aí, é uma miríade de triângulos. Vejo treze. Três deles são da própria decoração nas paredes da igreja, feita com o que parecem ramos de alguma árvore.

Tais considerações talvez não tenham sido levadas em conta por Jacob, porém são sinalizações do que ele possa ter intuído, diante da própria atmosfera em que estava imerso naqueles dias. Este litoral de contornos tão suaves, tão diferente do que é o nosso hoje, é quase inacreditável, ao ponto de aparentar ser um outro lugar. Isto é desconcertante, pois de certo modo, é mesmo um outro lugar. Eis aí a importância de algo assim, um registro de um passado não tão distante assim, que como tantos outros, está a nos sinalizar o que afinal, perdemos com a velocidade quase insustentável em que se tornou nossa realidade.

Alemanha – Paisagem Natural

(JPH0734)

Numa viagem à Alemanha com a família, Jacob comprou uma máquina fotográfica Zeiss Ikon, e de lá nos vem as suas primeiras fotos. Era 1929, o pior ano da tremenda depressão econômica por que passava o país, e que abriu as portas para que o pesadelo nazista assombrasse o mundo. Provavelmente, esta situação tenha criado as condições para que ele adquirisse a máquina a um preço acessível.

Não sei se antes disso ela já alimentasse a ideia de um dia tornar-se fotógrafo, porém nestas primeiras imagens já é possível perceber que há aí já um olhar que examina cautelosamente o que deseja registrar. As fotos deste período são numerosas, e para nossa surpresa, já são em negativos de celulóide, diferentemente dos negativos de vidro, que ele usará com frequência quando voltar a Porto Alegre. Acredito que essa foi uma escolha motivada pela maior facilidade de manusear e de transportar, durante uma viagem.

A foto que escolhi para comentar esta sessão do acervo, é propositalmente muito diferente da maioria, dedicada a monumentos e paisagens urbanizadas. A escolha deve-se ao tema, tão diferente das demais fotos do período, consequentemente, à sua composição. Me chama a atenção a maneira como ele enquadrou a parte superior da imagem. A massa foliar que a ocupa funciona como uma espécie de moldura irregular. Tem uma densa sombra que estabelece um forte contraste com todo o resto da paisagem. Sua silhueta rendilhada parece dialogar com as copas das arvorezinhas mais abaixo. Tem uma curiosa formação concêntrica, que dirige toda nossa atenção para o restante da foto.

E o “resto” da foto, eis a questão, é muito simples, mas da mesma forma, é fundamental que assim seja. Formado por horizontalidades irregulares, é um conjunto suave, lento, mas que nem por isso se torna desinteressante. É composto por três áreas bem recortadas. As faixas de cinzas claros e de textura delicada, do solo e da montanha ao fundo, atravessadas pela mancha escura das árvores que se erguem, apontando seus ramos para cima, sugerindo um diálogo com os ramos escuros lá de cima.

Naturalmente não estou propondo que Jacob pensou em tudo isso antes de fotografar. Se fizesse isso, a foto provavelmente não teria essa naturalidade. A parte mais importante de uma obra não se dá de antemão, pelo pensamento. Não. Ela acontece depois, através da intuição que percebe às vezes sem que nem mesmo o artista se dê conta, os encontros casuais e sua poesia à espera de algum olhar.

Natureza-morta

(JPH0204)

Jacob foi muito feliz ao retratar cenários, cenas e detalhes da vida doméstica. Suas abordagens das nuances presentes no pequeno universo do seu lar, revelam encantamento. É quase palpável o cuidado com que ele ordena os objetos antes da foto. Cada um deles é imprescindível. Nada parece insignificante. Em distintos níveis, cada coisa ocupa um lugar importante no conjunto. Suas naturezas-mortas tem esta qualidade, assim como algumas cenas de convívio familiar, nas quais as pessoas parecem nitidamente à vontade no ambiente..

Aqui, o que primeiro atrai a atenção é a claridade discreta, filtrada, emergindo lentamente das sombras nas quais todo fundo está mergulhado. Olhando desta forma, vamos entendendo as prioridades que ele estabeleceu ao ordenar o conjunto. De cara, identificamos o protagonista: um vasinho de flores. Sua centralidade na composição e a simetria que isto propõe, não correm o risco de tornar a imagem desinteressante. Já a própria circularidade da mesinha de leitura impede isso. Ela tem um leve desalinho em relação ao centro, e está coberta por uma toalha ricamente estampada, que por si só, pode reter a atenção do espectador. E para isto, também há a contribuição de dois elementos da padronagem, na margem esquerda da toalha, que sutilmente nos dirigem para o centro, onde está a base do vasinho.

A simetria da foto, já parcialmente quebrada pelo complexo padrão rítmico da toalha, ainda é quebrada pelos dois ramos de flores que simuladamente, parecem ter caído sobre a mesa. Seus caules vêm do centro, novamente da base do vaso, e como que se abrem em leque. As flores sinalizam dois componentes vitais na obra: à esquerda, os óculos de Jacob: à direita, o livro, sobre o qual a rosa parece descansar ternamente. As páginas fechadas deste livro, juntamente com a flor que lhe é mais próxima e as pequenas flores nos limites do ramalhete, são as mais intensas manifestações da pouca luz do ambiente. As páginas do livro, mais próximas da fonte de luz. As flores, emolduradas pela absoluta ausência destaa luz.

Tudo parece emergir do fundo e de sua densa escuridão e para tanto, a padronagem da toalha dá sua contribuição, escalonando lentamente o nosso olhar. Todos estes diálogos contribuem para o que claramente era o objetivo de Jacob: representar a quietude do momento, a serena solitude deste que não está ali, na foto, mas que sim, está lá manifesto na presença do livro e dos seus óculos.